A visita da rainha

A visita da rainha

Tenho uma grata reminiscência da visita ao Brasil da Rainha Elizabeth II (ou Isabel II), no tempo do Governo Costa e Silva. A televisão mostrava – em preto e branco – a Rainha visitando o Monumento do Aterro, na Cidade do Rio de Janeiro, para homenagear os combatentes brasileiros da Segunda Grande Guerra.

A Rainha chegou, ouviu os dois hinos nacionais (do Brasil e da Inglaterra) e, em seguida, recebeu a apresentação do Comandante da Guarda de Honra, que, depois de saudá-la em continência, convidou-a a passar em revista a tropa. Por último, Sua Majestade subiu os degraus de acesso ao largo patamar do Monumento.

Depois de depositar a “corbeille” com que homenageou nossos pracinhas, a rainha recuou alguns passos, deteve-se em uma nobre e impecável atitude de reverência e assim se conservou enquanto soavam as clarinadas do toque de silêncio, como é da norma do cerimonial.

Uma chuva de pétalas de rosas caiu do alto da coluna do Monumento sobre a figura elegante e serena da Rainha, no quadro daquela manhã de sol, ainda mais linda pela presença de várias senhoras da alta sociedade, com vestidos elegantes, formando um belo painel que tinha como fundo o mar, o céu e os recortes das montanhas da Guanabara.

Depois disso, a Rainha foi convidada a assinar o livro dos visitantes ilustres. O carrilhão da Mesbla interrompeu o grande silêncio, que todos guardavam, tocando os acordes do hino inglês em homenagem a Sua Majestade.

Todos desceram de volta a escadaria do Monumento. A Rainha elogiava tudo o que vira e admirava a cerimônia e o cenário inigualável da Baía de Guanabara.

Ao despedir-se ela fez este comentário diante da câmera de televisão:

-Nunca vou esquecer esta cerimônia.

Dias depois a Rainha sobrevoava, de helicóptero, Brasília. Naquela época eu era um guri de treze anos e havia decidido subir ao telhado da casa onde morava. Então vi o helicóptero passando sobre mim e distingui perfeitamente a rainha. Sem pensar duas vezes, tirei minha camisa vermelha e acenei para ela, gritando:

-Salve a rainha! Salve a rainha!

Minha mãe veio para o quintal da casa e gritou para mim:

-Meu filho, esconde essa camisa vermelha! Eles vão pensar que tu és comunista!

Alguns anos passados, eu estava em Montreal, no Canadá, no ano dos Jogos Olímpicos. Eu caminhava com meu pai pelo centro da cidade. Era uma noite cálida de verão e Montreal estava em festa por causa das Olimpíadas. Havia luzes acesas por toda parte e muita gente de vários lugares, inclusive turistas brasileiros.

Tudo ia bem, quando subitamente ouvimos sirenes da polícia. Meu pai e eu paramos nas esquina das ruas Peel e Sherbrooke para ver os batedores com suas motocicletas ruidosas e as sirenes ligadas, precedendo três automóveis de luxo, limusines de cor preta, passando por nós e ladeadas por outros batedores da polícia com suas motocicletas cintilantes. Em um daqueles Cadillacs distingui perfeitamente a Rainha Elizabeth II. Com um pouco de emoção eu disse para meu pai:

-Pena que não tenho uma camisa vermelha para acenar.

Ele replicou sorrindo:

-Eles podem pensar que tu és comunista.

Nós rimos. Após o cortejo ter passado, continuamos a caminhar.

Esta crônica foi classificada em terceiro lugar no IX Concurso Literário Asefe (Associação dos Servidores da Fundação Educacional) em 2000.