Pagando mico

Pagando mico

Este é um caso de viagem vivida por mim e que servirá de aviso para que outros não cometam o mesmo “erro”. Foi um mico danado que paguei naquela viagem, mas foi um momento engraçado. Infelizmente não tenho uma foto para mandar junto.

Tudo aconteceu em novembro de 1975. Eu estava em Montreal e tinha decidido a participar de uma viagem em excursão para Ottawa. Os canadenses gostam muito de viajar em excursão. A viagem seria de ônibus.

O ônibus partiu cedo de um lugar chamado Parc Lafontaine e aos poucos os edifícios da cidade ficaram para trás. Todos nós admirávamos os campos cobertos de neve, o dia cinzento, a garoa, o ruído monótono do motor traseiro do ônibus e o limpador de pára-brisas.

Eu estava acompanhado de Adolfo, um rapaz brasileiro filho de portugueses, da Cidade do Rio de Janeiro. Seu nome completo era Adolfo Perestelo. Durante a viagem ele me dizia:

-Meus pais são judeus portugueses, descendentes de Cristóvão Colombo.

-Aquele que descobriu a América? (Perguntei).

-Sim, ele mesmo. Ele colonizou a Ilha da Madeira antes de descobrir o Novo Mundo.

-Essa informação não está nos livros.

-Não, porque é uma coisa muito pessoal.

Dentre os passageiros do ônibus havia uma elegante garota italiana chamada Elena, toda vestida de preto (casaco, calça e botas). Ela era esbelta e tinha longos cabelos castanhos encaracolados. Ao saber de nossa nacionalidade brasileira, ela se aproximou de nós para conversar.

O ônibus chegou em Ottawa e nós descemos logo em seguida. Visitamos o Edifício do Parlamento, outros edifícios do governo e o Museu Nacional das Artes. Foi no museu onde tudo aconteceu.

Caminhávamos sobre tapetes felpudos e admirávamos as pinturas de Pablo Picasso, Salvador Dalí, dentre outros, além de esculturas indígenas dos Inuit (que detestam ser chamados de esquimós). Havia também tapeçarias e vitrais – tudo feito com tanto refinamento e sensibilidade, capaz de suavizar o mais bronco dos homens. As luzes fluorescentes eram embutidas no teto eu, por sua vez, também era decorado com bordas de gesso e as pilastras eram uma imitação daquelas pilastras dos antigos gregos, com seus capitéis e frisos que pareciam ser de mármore.

A um dado momento eu me afastei de Adolfo e aproximei-me de Elena, aquela moça italiana que conhecemos no ônibus. Ela era jovem, formosa, tez morena e o olhar penetrante das mulheres árabes. Elena era italiana da Sicília. Naquele instante ela olhava uma pintura de Picasso.

As pinturas eram protegidas por um vidro transparente cercado por uma moldura de madeira envernizada. Ao lado de cada pintura havia uma placa de metal contendo, em alto relevo, todo o histórico da obra de arte, incluindo o nome do artista plástico.

-Oi, Elena!

-Oi.

-Estás apreciando o Picasso?

-Sim, mas não consigo gostar dele. Prefiro o Dalí.

-Eu também prefiro o Dalí.

Caminhamos lado a lado pelo corredor do museu. Adolfo vinha atrás de nós, sempre sorrindo. Elena dizia:

-Tem algum pintor de teu país aqui?

-Não, não tem. Mas em Nova Iorque tem um painel enorme feito por um brasileiro.

-Quem?

-Cândido Portinari.

-Ele é italiano?

-Ítalo-brasileiro.

Ela parou de caminhar e olhou para mim.

-Sabes, tenho vontade de conhecer o Brasil, porque há muitos italianos lá. Mas ao mesmo tempo tenho medo.

-Por quê?

-Há muitos ladrões lá, não?

-Sim, a começar pelo governo…

Adolfo me cutucou nas costas e falou:

-Não dê vexame aqui, rapaz! Não desmoralize nosso país!

-É mesmo! Desculpe, desculpe.

Elena riu e disse para nós:

-Com licença, rapazes. Vou ali pegar uma informação sobre aquela escultura esquimó, quero dizer, inuit.

Ela nos deixou. Então eu disse para Adolfo:

-Escuta, vou deixar uma lembrança minha aqui, uma marca de minha passagem por aqui.

Adolfo me olhou desconfiado e disse:

-Tu não estás pensando em pichar o muro ou mijar no tapete…

-Não, não. Sou brasileiro, mas não sou porco.

-Qual é teu plano?

Tirei do bolso de meu casaco uma fita de papel branco contendo alguns números impressos.

-Isto aqui é um bilhete do metrô de Montreal.

-Sim, e daí?

-Vou jogá-lo, disfarçadamente, sobre o tapete. Assim, quando a faxineira vier passar o aspirador de pó, ela vai perceber que alguém de Montreal tem passado por aqui.

Dito isso, deixei cair o bilhete e saí conversando com o Adolfo, como se nada houvesse acontecido. Ele sorria o tempo todo e dizia:

-Uma mensagem secreta para a faxineira.

Paramos diante de uma escultura inuit, feita com ossos de baleia, quando senti alguém me tocar.

-Senhor?

Adolfo e eu nos viramos e vimos um enorme homem branco, com terno e gravata, todo sorridente e simpático. Ele me mostrou o bilhete do metrô e perguntou:

-Isto aqui é seu, senhor?

Fingindo-me admirado, eu disse para o agente de segurança:

-Sim, é meu. Obrigado.

Peguei o bilhete e coloquei-o de volta no bolso de meu casaco. O homenzarrão replicou:

-Não há de quê, senhor.

E saiu para uma outra sala do museu. Adolfo riu, mas eu fiquei sério e não quis conversar mais.

Saímos de Ottawa naquele final de tarde e chegamos a Montreal no início da noite. Nevava e fazia frio.

Taguatinga (DF): 1º de fevereiro de 2002