O valor do presente

Estava pensando na chegada de uma amiga querida que vem do Canadá dentro em breve. Já estamos organizando uma agenda de tarefas que passam por idas ao Outback, Franz Café, botecos e parques da cidade. Estamos todas ansiosas, esperando o dia em que ela chegará e passearemos e seremos felizes. E tudo será como antes novamente…

 

Mas, o detalhe é só um. As amigas que ficaram nunca se encontram. Uma não pode porque vai levar alguém à rodoviária, a outra tem que trabalhar cedo no dia seguinte, a outra tem curso. E na quarta não dá porque tenho atendimento, ou alguém tem médico e depois dentista e mais uma dúzia de obrigações que fazem com que passemos semanas sem saber que a outra agora está loira ou algo do gênero. E mesmo assim, achamos que seremos felizes só quando a outra, de longe, chegar.

 

Porque valorizamos tanto aquilo que não temos? Nossas amigas de perto, do mesmo bairro, da mesma rua, nunca podemos encontrar. Mas é só alguém vir de longe que ganha status de atração de circo, e corremos para matar as saudades. Como se saudades fosse alguma coisa que só desse se a pessoa atravessar o oceano.

 

Será que é, como disse uma destas amigas que mora na rua de baixo, coisa de ser humano? Sei lá. Se considerarmos que ser humano é um conjunto de atitudes e comportamentos aprendidos e culturalmente passados adiante, pode ser. Só valorizamos o que não temos: o vestido que ainda está na loja, o carro que ainda está na concessionária, o grande amor que ainda não chegou na sua vida. Sempre algo que está por vir e nunca o que temos de verdade. Os vestidos lindos do armário, as amigas próximas, os restaurantes abertos. Você percebe que é só um autor famoso morrer que ele se acaba de vender livros? O CD dos Mamonas Assassinas na época da queda do avião em que eles estavam, esgotou do dia para a noite. Temos um falso senso de que precisamos segurar aquilo que está indo embora, como se possuíssemos o controle das situações e das pessoas. E nos arrependêssemos pelo tempo que perdemos não curtindo aquilo.

 

Mas aí vem o Universo e dá uma gargalhada na nossa cara dizendo que aquilo que sempre esteve ali e que você nunca valorizou vai embora. Ou por morte, ou por mudanças ou simplesmente por afastamento mesmo. E aí corremos para a loja para comprar um souvenir, que nos mate a falta que aquilo fará no futuro. Uma baita loucura.

 

Que medo que temos da saudade quando é ela é a prova de que tivemos uma chance. E que prova, que nos mostra a todo instante que ainda temos um monte de coisas das quais poderemos sentir falta no futuro.

 

Então, que tal simplesmente usufruir daquilo que ainda temos? Já que tudo o que sólido desmancha no ar, porque não aproveitar os restaurantes abertos, as lojas abertas, as amigas próximas, os amores presentes? É tão bom usufruir…saber-se querido e amar o que temos. Porque, como sabemos, assim que saí da loja aquela blusa perde a graça. Vamos parar com isso de não ver graça no que o Universo já nos proporcionou.

 

Hoje, eu fiz um levantamento e decidi valorizar o que eu tenho. As minhas novidades, as minhas amigas queridas que moram no mesmo bairro ou muito próximo, os parentes vivos e presente ou ausentes. Os pequenos cafés deliciosos, o frio gostoso batendo na janela e tudo o que é presente. Porque presente é, como o próprio nome diz, o maior presente que temos: uma dádiva divina!