O sabor amargo do excesso de materialismo

Sabe, eu gosto de dinheiro. Gosto de ter coisas bonitas e boas. Gosto de ser bem tratada nos lugares onde eu vou, gosto de andar em carros confortáveis e gosto da sensação de segurança que o dinheiro dá. Você sabe, no Brasil, que se tiver dinheiro possivelmente terá um melhor atendimento médico numa hora de necessidade. Que poderá resolver seus problemas de maneira mais fácil e mais tranquila. A vida é assim. Desde que o mundo é mundo.

 

No Brasil parece que é feio dizer que tem dinheiro. É feio falar sobre as próprias conquistas. Não pega bem, sabe, parece que você está querendo humilhar o outro. Ou melhor, o outro já se sente humilhado porque não tem o que você tem, e aí é você que tem que calar a boca. Isso não acontece só com o dinheiro em si, mas com status, com condição social e até mesmo com as nossas conquistas. Conquistou? Ralou anos e agora pode comprar um carrão? Fiquei bem quieto e aja naturalmente, nada de ficar se exibindo por aí.

 

Mas não é assim. Não é o dinheiro, em si, mas a prosperidade. Existem pessoas que nunca tocaram em dinheiro, mas tem acesso à coisas fantásticas. Coisas que simplesmente caem no colo delas, sem nenhuma explicação plausível.

 

Mas aí, com essa “vergonha” toda, essa culpa “católica” (não no sentido da religião, mas da cultura) de ter alguma coisa acaba por criar monstros.

 

Esta semana vimos um homem bater num carro a 140 km por hora, numa esquina chique da cidade. O carro? Um Porshe. Ou seria uma Porshe, nem sei chamá-la direito. Dentro do outro carro uma jovem advogada, de 28 anos e toda a vida pela frente. A batida foi fatal, mas não para o motorista do Porshe. Ele saiu andando , ileso, ligando não sei para quem dizendo “cara, eu bati o carro, o carro”.

 

Naquele momento a preocupação dele era o carro. Um Porshe de sabe Deus quantos mil reais. Ele estava se importando mais com isso do que com a vida da motorista do outro carro.

 

Novamente, não vou julgar ninguém. O Universo tem seus próprios designos e a nós basta apenas aceitar. E isso não é tarefa fácil , eu sei bem disso. Mas a que ponto chegou o materialismo?

 

As pessoas na rua, andando em seus carros, não são pessoas. São carros. É aquela BMW, aquele Fusca, e aquela moto. Ah, as motos, são um capítulo à parte! As pessoas se despersonalizam quando estão na rua, no trânsito. Passam a tratar e a ser tratadas como um objeto, seus carros. Não pelo conforto que ele dá, mas pelo status, pelo falso poder que transmite. O carro se tornou uma armadura, uma arma na mão de pessoas completamente ligadas somente no que é material.

 

O material, repito, é importante. Ter dinheiro pra fazer o que você quer, cuidar do seu próprio corpo com carinho. Isso é uma coisa. Outra, bem diferente, é como as pessoas se julgam única e exclusivamente pela aparência, pelo que se tem. Outro dia andando nos recondidos da Zona Leste de São Paulo, passei em uma avenida com casas muito simples. Os moradores chegam a ter problemas com inundações neste local. Casas sem portão, com reboco pela metade, aquela dificuldade para conseguir fazer pequenas reformas que muitos conhecem. Mas os carros estacionados nas garagens, era de assustar.

 

Nunca achamos que uma pessoa com uma Meriva nova more num lugar sem conforto nenhum, muitas vezes. Antigamente, a nossa prioridade era uma casa e depois um carro (pelo menos foi isso que eu aprendi com a minha família). Hoje as coisas estão se invertendo. Não que o carro não seja necessário mas pense, será que não seria melhor ter um carro mais simples, os famosos 1.0 e conseguir rebocar a própria casa em que se mora? Será que não é mais importante pensar grande, a longo prazo? E por que será que as pessoas fazem isso?

 

Justamente para parecem o que não são. Outro dia li no Twitter da Rita Lee, cantora que eu adoro “As pessoas vão ao shopping comprar coisas que elas não precisam, com um dinheiro que elas não tem, para mostrar para pessoas que elas não conhecem”. E é a mais pura verdade. Onde estão os nossos verdadeiros valores?

 

Por valores não entenda casar virgem ou nunca mentir, isso é besteira. Estou falando de você procurar saber quem você é, o que faz pelo mundo e pelas pessoas. Que exemplo você está dando para o seu filho? O exemplo de “pareça ser o que você não é e finja até a morte?” Valores como se conhecer, como entender qual é a sua espiritualidade, qual é a sua missão no planeta, o respeito aos outros seres humanos. Vejo alguns casos de pessoas que, nem esfriaram no caixão, e os filhos e netos já estão disputando a herança no tapa. Que tipo de valor é este? Que tipo de valor faz o cara se preocupar com o carro e o prejuízo financeiro ao invés da vida de uma pessoa? Está, realmente tudo ficando muito trocado.

 

Consumir desesperadamente, coisas que nem precisamos, isso tem muito. E eu mesma me pego fazendo isso de vez em quando. Hoje estou trabalhando a minha consciência, do que é útil e do que é inútil para mim. Mesmo trabalhando também com vendas, eu analiso o que cada pessoa precisa e quer de fato, e não fico empurrando um monte de porcarias que, no caso dela, não servirão para nada. Porque estes são os meus valores. Quero poder deitar a minha cabeça de noite, no meu travesseiro macio e pensar “hoje eu fiz pelo Universo coisas bacanas que eu sei que ele vai retribuir na mesma moeda”. Porque no final de tudo é isso: tudo o que se manda, se tem de volta.