O medo de envelhecer

Nossa, que tema controverso este. Nada fácil de lidar com isso, porque fala, de certa maneira, da pior angústia da sociedade (segundo Freud) que é a certeza da morte. O homem é o único animal que tem consciência sobre isso, que sabe que um dia chegará a sua vez. E, claro, todos esperam que isso aconteça na velhice. Mas, ao mesmo tempo, ninguém quer envelhecer. Complicado! A juventude é um cálice sagrado a ser perseguido pela humanidade. A cada dia surgem mais e mais cremes, mais e mais tratamentos que prometem reverter o tempo que os anos levaram. E lá dentro, o medo das “pelancas” cresce a cada dia.

 

Acabo de sair da manicure e lá tinha uma cliente com esse pavor. O medo de ficar, segundo ela, “velha e pelancuda”. Falava isso sim com muito rancor na voz, como se fosse algo proibido pela moral ou pela ética. A coisa estava feia e todo argumento que eu dava, ela ressarcia com a fúria de quem já pensou em todas as respostas para dar.

 

Falei primeiro que a velhice traz vantagens. Quais? Ela perguntou. Bom você se conhece mais, não encana mais com tanta porcaria. Ninguém espera mais nada de você, então você pode ser e fazer o que quiser. A cabeça fica mais aberta, você tem dinheiro pra se manter (eu sei que não é em todos os casos) e já tem histórias boas e ruins pra contar. As coisas ficam mais leves, sua cabeça flui melhor. Você tem a experiência que ninguém mais tem, conhece coisas que nem existem mais e pode se vangloriar por isso. Claro que existem exceções, gente que vive mal e envelhece muito mal também, mas estou falando de pessoas que se cuidam (do corpo, da alma e da mente) e que chegam lá melhores do que entraram.

 

Meu avô foi um exemplo. Viveu 96 anos, muito bem vividos. Ainda aos 90 ia a pé da Zona Leste de São Paulo até o centro da cidade (para quem não conhece, isso dá uns 10 quilômetros). Dava suas voltinhas e retornava para casa com o pão do café da tarde. E por falar em café, ele tomava uma xícara bem grande, com muito, muito açúcar todos os dias. Gostava da sua casa, de suas coisas. Sim, acabou doente e só por isso que morreu. Mas viveu bem demais!

 

Minha avó, a mulher dele, tem 85. E mora sozinha, cuida de sua vida e ainda ajuda os três filhos (vivos, ela já perdeu dois) e um bando de netos e bisnetos. Não tem muito dinheiro, mas se vira no que pode. É ajudada pelas filhas, e se mantém ativa e feliz. Isso é envelhecer bem.

 

Claro que perdemos coisas com a idade. Claro que vem as rugas, as nesgas, as perdas. O que eu sempre penso são nos aspectos psicológicos. Aos 84 e doente numa cama de hospital (depois de ter lutado com o câncer por 12 anos e ter ganhado todas as batalhas) meu avô (desta vez paterno) proferiu sua sentença de morte quando disse com seu sotaque português: “não sei mais o que estou aqui a fazer, que não vejo mais sentido na minha vida”. Pronto! Morreu seis meses depois (e não foi do câncer, foi do coração). Isso porque ele entregou a sua alma, que cansou de estar por aqui sem nada que lhe fosse familiar. Todos os amigos, os irmãos, a família já tinha morrido. Ele foi junto!

 

Quando pensamos em morte e em velhice de um ponto de vista meramente materialista, de fato perdemos mais do que ganhamos. A juventude, a beleza. Mas quando pensamos com o coração e com a alma, percebemos que estávamos nos preparando pra isso durante toda a nossa vida. Eu não sei se estou certa ou errada, é só a minha visão do hoje. Não envelheci ainda, nesta encarnação, para dizer se é mais pro bem do que para o mal. Mas sinto isso, no meu coração.

 

Cuidar de si para ter uma velhice bacana é a melhor coisa. Passo meus cremes (muitos, porque eu adoro), cuido muito bem da minha saúde, tenho uma alimentação saudável (na medida do possível), faço exercícios, danço, namoro, leio muito e, principalmente, aprendo uma coisa nova todos os dias. E mantenho meus pés muito firmes na realidade, olhando tudo de frente. Se a vida é isso aí, não temos o que fazer. Lutar contra isso é perda de tempo e só nos faz sofrer por antecipação. Como sei que posso escolher serei aquela velhinha gente fina, que todo mundo gosta, cheia de manias (é verdade), mas muito, muito de bem com a vida que eu me dei!