Não há ventos favoráveis para quem não sabe aonde vai

Não há ventos favoráveis para quem não sabe aonde vai

Era o mês de setembro de 1975. Final de verão canadense. Montreal estava em rebuliço. O movimento de carros e ônibus havia aumentado, como também o de ciclistas. Todos os montrealenses estavam de volta de suas férias de verão. O ano letivo começava, as escolas estavam cheias de estudantes.

Lá estava eu estudando Psicologia no Dawson College, Lafontaine Campus. Naquela época eu tinha vinte anos. Na escola eu era discípulo de Skinner, o maior psicólogo americano do final do século XX.

Skinner havia declarado uma vez na televisão que a verdade científica só interessava a uma minoria de pessoas instruídas. Este grupo seleto de intelectuais às vezes é vítima de suas próprias paixões. As paixões humanas. Alguns destes intelectuais prolongam seu conhecimento adquirido, outros se opõem a este conhecimento. Estes opositores fazem críticas, dando sugestões. Tudo isto se resume em uma só palavra: filosofia.

Então eu me lembrava de Sêneca, o grande filósofo romano e sua célebre frase: “não há ventos favoráveis para quem não sabe aonde vai”. Filosofia tem alguma coisa a ver com liberdade, força interior, pensamento. Isso me assusta até hoje.

Aos vinte anos de idade eu era teimoso e queria lutar contra o mundo. Eu não entendia que era impossível navegar contra os ventos, conforme dizia Sêneca. Eu não entendia que era apenas um soldado desarmado em um campo de batalha. Eu me movimentava por caminhos árduos e certos. O destino me guiava.

Naquele mês de setembro eu tinha uma bela professora de Psicologia. Ela tinha me reprovado num teste. Fui para sua sala reclamar. Ela simplesmente me disse assim:

-Eu te dei uma nota baixa no teste, porque tua maneira de pensar é diferente da minha. Deve ser porque tu és brasileiro e eu canadense. Entendes?

-Onde está a liberdade de pensamento?

Ela riu para mim e respondeu:

-Toda a liberdade é fictícia. Não temos direito de pensar além do que é imposto pelo regulamento. É assim que as coisas funcionam aqui.

Saí da escola e fui para a estação de metrô. Enquanto caminhava, eu pensava na lição que havia aprendido no Canadá. O homem é obrigado a ser livre, porque nenhum escravo paga imposto. Toda liberdade é fictícia, portanto o homem é apenas um número dentro do regulamento. Para ser bem aceito pela sociedade e viver bem, o homem tem que se contentar em ser apenas parte da plateia de um concerto de rock.

Não se pode lutar contra o sistema, não se pode navegar contra a corrente. Lá vem Sêneca de novo: não há ventos favoráveis para quem não sabe aonde vai. Mas eu quero ir. Por isso eu insistia em lutar contra o destino.

Carnaíba (PE), 1o de outubro de 2001