Meu nome é Besouro

Meu nome é Besouro

1978.

Ainda me lembro daquela noite de verão em Montreal, o Canadá, em que vínhamos do Hospital Royal Victoria. Éramos cinco: Alicemar, seu irmão Alfredo (também conhecido como Fredim), Valquíria, sua irmã Glória, meu irmão Fabiano e eu (meu nome é Heitor). Um automóvel passava por nós com o rádio ligado e todos podíamos apreciar aquela canção de Gino Vanelli tão famosa na época: “those nights em Montreal” – aquelas noites em Montreal. De repente alguma coisa nos chamou a atenção: sentado sobre as escadas de um velho edifício de arquitetura vitoriana, cercado de estudantes canadenses de língua inglesa, entre rapazes e moças, alguém tocava violão e cantava em português uma canção de Nelson Gonçalves. Glória ficou toda excitada:

-Ih! Gente! Tem brasileiro por aí! Vamos lá!

Nós nos aproximamos do velho sobrado. Ao terminar de cantar, os estudantes da Universidade McGill aplaudiram e elogiaram: “very good”, “play it again”, “come on”. Então Alicemar gritou:

-Canta de novo! Canta de novo!

Percebendo os gritos de Alicemar, o rapaz olhou para nós, sorriu e disse:

-Caramba! Até que enfim vejo alguns brasileiros nesta cidade! Dois meses que estou aqui e nada de brasileiros. Eu já estava pensando em ir para os Estados Unidos.

-Estamos sempre por aqui. Disse Alicemar.

-Onde vocês moram?

Alicemar hesitou. Então respondi:

-No subúrbio. Mas eu moro aqui no centro da cidade.

-Gente, não fiquem aí de pé. Aproximem. Vou cantar de novo.

Alicemar subiu os degraus e sentou-se a seu lado. E disse:

-Toca o Benito de Paula.

Fiz cara feia. Ela prosseguiu:

-Canta aquela canção que adoro: “mulher brasileira em primeiro lugar”.

Fiz uma cara mais feia ainda:

-Alicemar, não me passe vergonha.

-Por quê? Que mal existe em dizer que a mulher brasileira é a melhor?

-Estamos no meio de um grupo de estudantes canadenses de língua inglesa e eu não estou a fim de ser tascado esta noite. Temos que agradar os nativos do país.

O cantor brasileiro decidiu cantar “A Volta do Boêmio” e foi muito aplaudido. Mais tarde o grupo de canadenses se dispersou e um deles carregou o violão que o rapaz brasileiro tocava.

-Onde a gente vai agora? Perguntou ele.

-Vamos tomar um “cappuccino” em La Bodega. Alicemar replicou.

-Boa ideia. –concordou Fredim.- Vamos lá.

Nosso grupo, agora seis pessoas, foi para o restaurante na Avenue DuParc. Lá, o garçom, namorado de Valquíria e nascido no Uruguai, juntou duas mesas e educadamente perguntou:

-Que desejam tomar?

-Cappuccino, querido. –Valquíria respondeu- Olha, temos um novo brasileiro em nosso grupo.

-Estou vendo. Fala, amigo!

-Falou, bicho. – Replicou o cantor brasileiro.

-Vou buscar o cappuccino.

Uma vez sentados, Alicemar perguntou ao rapaz brasileiro (que era branco de porte atlético, cabelos castanhos e olhos da mesma cor):

-Mal nos conhecemos e ninguém sabe teu nome.

-É verdade, não é mesmo? –Concordou Fredim, irmão de Alicemar. –Qual é tua graça, hein?

-Minha graça? –Disse o cantor. –Meu nome é Besouro.

-Besouro? Que nome engraçado!

-Bem, é meu nome de artista. Meu nome verdadeiro é Odilon. Mas quando eu tinha dezoito anos de idade, eu era redondo, para não dizer gordo. Um dia comprei um Volkswagen Sedan, o Fusca. Então apelido pegou mesmo.

-Que idade tu tens? Perguntou Glória.

-Vinte e seis.

-Casado? Perguntou Valquíria.

-Gente, sou solteiríssimo.

-Virgem?

-Gente, vocês são muito curiosos.

-Que estás fazendo no Canadá?

-Sou estudante. Estou aqui para estudar inglês e aperfeiçoar meu currículo. No Brasil sou professor de Educação Física, formado na Universidade do Paraná. Minha família mora em Curitiba. Tenho uma casa em Paranaguá e uma fazenda em Londrina. Um tio meu que vive em Ribeirão Preto pagou esta viagem para mim.

-Tu vais estudar na McGill?

-Talvez. Ainda não decidi.

Naquele momento o garçom uruguaio trouxe uma bandeja com os cappuccini. Após distribuir as xícaras, ele sorriu e saiu. Besouro provou um pouco do conteúdo de sua xícara e disse:

-Muito bom.

Após algum tempo saímos do restaurante. Trocamos números de telefone e tomamos caminhos separados. Alicemar, Fredim, Valquíria e Glória tomaram o metrô na Estação Place Des Arts. Besouro foi para seu quarto alugado na Rua Hutchison. E eu segui para meu apartamento na Rua Saint Urbain.

No dia seguinte o telefone tocou:

-Alô!

-Heitor? Aqui é o Besouro. Tudo bem?

-Tudo bem.

-Rapaz, necessito de tua ajuda.

-Qual é o grilo?

-Não tenho grana para pagar o aluguel do quarto onde durmo. Os caras não estão gostando disso.

-Nem eu. De quanto tu necessitas?

-Não é muito, não.

-Diz o número.

-Cem.

-Certo. Vou te emprestar a grana.

-Eu te pago assim que receber o próximo cheque do Brasil.

-Não tem problema. Quando a gente pode se encontrar?

-Às cinco, no Les Terrasses.

-Até às cinco.

-“Ciao”.

Desliguei o telefone.

Às cinco horas daquela tarde Besouro e eu entramos no Centro Comercial Les Terrasses na Rua Sainte Catherine. De lá seguimos para a Rua Hutchison, perto da Universidade McGill. Enquanto caminhávamos, ele dizia:

-Tu fala inglês melhor do que eu, sabe, por isso que estou pedindo este favor: tu vai servir de intérprete.

-Não tem problema. –Repliquei. –Vamos lá.

A Rua Hutchison é antiga, com casas velhas e cinzas, feitas de pedra, arquitetura vitoriana. Árvores e jardins, os carros dos estudantes estacionados à beira da calçada. Enfim chegamos a nosso destino.

-Rapaz, eu gostaria de te pedir um favor.

-Diga, Besouro.

-Posso ficar em tua casa?

-Por quê?

-Sabe o que é, esses caras falam tudo em inglês e estão sempre pedindo dinheiro. Estou cansado de dizer que vou pagar o aluguel, mas eles não compreendem. O cheque está chegando pelo telex.

-Vou falar com eles.

Falei com os rapazes canadenses e paguei o aluguel atrasado. Besouro veio descendo as escadas com duas malas, uma em cada mão.

-Pronto? Perguntei.

-Prontíssimo. Ele respondeu.

Ele e eu caminhamos para meu apartamento no sétimo andar de um arranha-céu na esquina entre as ruas Saint Urbain e Milton. Já estava escurecendo.

Besouro dormiria na sala. Tomamos um café e fui para o quarto estudar, até que dormi. Enquanto isso Besouro sentou-se à mesa, a luz acesa e, com um papel e uma caneta escreveu uma carta para o Brasil. Era mais ou menos assim:

 

“Rapaz, aqui é bom pacas! Estou numa boa. Ninguém sabe do meu passado em Curitiba. Por enquanto sou um bom moço. A polícia ainda não está atrás de mim. Quando isso acontecer, pego uma rota de fuga para os Estados Unidos ou para o interior do Canadá. Manda notícias.

Do amigo,

Besouro”.

 

Ele dobrou a carta e colocou-a em um envelope comum. Amanhã ele a despacharia pelo correio.

 

No dia seguinte fui para a escola. Besouro, só no meu apartamento, fumando um de meus cigarros, falava ao telefone:

-Pois é, meu tio. Está tudo bem aqui, mas tente mandar esse dinheiro.

A voz do outro lado da linha replicava:

-Está bem, rapaz, vou mandar a grana. Vem cá, faz tempo que a gente está falando, tu no Canadá e eu aqui no Brasil. Vai custar caro de telefone, hein!

-Não se preocupe, meu tio. Não sou eu quem vai pagar. Vou desligar. “Ciao”.

-“Ciao”.

Foi nesse momento que cheguei da Universidade Concórdia (onde estudava Psicologia). Ao ver-me, Besouro disse:

-Meu amigo Heitor, que prazer em ver-te. Tu és o melhor amigo que tenho fora do Brasil. Não sei como agradecer pela tua hospitalidade, teu espírito de camaradagem patriótico, sempre pronto para socorrer os patrícios nas horas de dificuldade…

Eu o interrompi para dizer:

-Besouro, economiza teu discurso. Tu vais necessitar de teu fôlego para cantar esta noite na casa do cônsul. Vai ter uma festa lá.

-Opa! Estamos aí!

Dois dias depois Besouro desapareceu sem dar notícias. No final do mês, ao receber a conta do telefone, fiquei surpreso com a tarifa tão alta. No início do mês seguinte, já no outono, recebi uma carta da Venezuela. Era do Besouro. Estava escrito assim:

 

“Heitor,

Desculpa o mau jeito, mas tive que sair do Canadá às pressas. Prefiro a Venezuela onde a polícia não é tão eficiente. Sou traficante de drogas e aqui eu me sinto em casa com meus amigos da Máfia Italiana. “Ciao”.

Caracas, 15 de setembro de 1978.”

 

Guardei aquele cartão postal no envelope e disse:

-Boa sorte, Besouro.

 

Longueuil, Canadá, 21 de novembro de 1981.