O carro branco

O carro branco

Naquele ano de 1975 eu estava em fase de adaptação. Eu caminhava à esmo pelas vias de Montreal, no leste do Canadá.

Em um domingo à tarde, em pleno mês de maio, decidi sair de casa e caminhar. Um par de tênis, calças “jeans” e jaqueta do mesmo estilo, eu olhava e contemplava os carros, os edifícios, as moças. Assim era minha vida no Canadá.

Subitamente eu tinha percebido que alguém me seguia. Olhei para trás. Vi péssoas passando por mim cabisbaixas, ninguém me dizia “boa tarde”. Afinal era uma tarde de domingo. Continuei minha caminhada ao léu, sem vontade de voltar para casa. Mas senti alguém atrás de mim.

-Alguém me segue. Alguém me observa.

Parei na esquina e olhei para o lado. Vi um carro branco, fabricado nos Estados Unidos naquele ano de 1975. Um carro novo e esportivo, duas portas. Era um Chevrolet Corvette. Havia uma mulher ao volante. Uma mulher jovem, de pele alva e bem vestida, com seus cabelos castanhos encaracolados e longos.

O carro passou por mim e entrou em uma via à direita. Atravessei a avenida e continuei caminhando. Após dois quarteirões, levei um susto ao ver aquele mesmo carro estacionado rente à calçada.

-Deve ser um outro carro da mesma marca e da mesma cor.

O carro estava lá, estacionado ao lado do meio-fio, completamente vazio, mas a janela estava aberta. Na pressa de sair do veículo, o motorista não deve ter se lembrado de levantar o vidro. Aproximei-me e olhei para dentro. Estranhei ao ver a chave na ignição. Aquilo era um convite para alguém entrar e ligar o motor.

-Pode ser uma cilada.

Decidi continuar caminhando. Foi quando uma voz de mulher disse atrás de mim:

-Está com pressa?

Olhei para trás e vi aquela moça de caberlos encaracolados e longos, pele alva e olhos castanhos. Ela era menor que eu, tipo francesa. Após o susto eu me recompus e repliquei:

-Não. Hoje é domingo.

-Eu vejo você caminhando solitário. Você parece triste. De onde você é?

-Sou do Brasil.

-Brasil? Que é isso?

-É um pais da América do Sul.

-Nunca ouvi falar. Mas, de qualquer maneira, você gostou do meu carro?

-Sim. Um belo carro.

-Quer dirigi-lo? A chave está na ignição.

Olhei para o carro. A tentação foi grande. A bela mulher se posicionou na minha frente e disse sorrindo:

-E eu vou junto.

Que diabo era aquilo? Uma cilada? Tive medo e o pânico tomou conta de mim. Olhei para o lado e vi uma viatura da polícia passando, os policiais me olhando desconfiados.

De repente aconteceu. Um homem negro, alto e forte como um lutador de boxe, saiu de uma mercearia trazendo uma sacola de papel com alguns mantimentos dentro. Ele usava um par de botas, calças do Exército, camiseta branca e um colete à prova de balas. Tinha a cabeça raspada e a cara de poucos amigos, parecia recém chegado da Guerra do Vietname. Ele olhou para ela e disse:

-Vamos sair daqui. Alguém nos reconheceu.

A moça olhou para ele assustada. Ele continuou:

-Entre no carro e ligue o motor. Rápido!

Ela obedeceu de pronto. Ele abriu a porta do passageiro e antes de entrar, disse para mim:

-Saia do meu caminho, frangote!

Em seguida ele entrou e bateu a porta. A moça ligou o motor e partiu.

Cheguei em casa confuso. Já era de noite. Subi as escadas e abri a porta do apartamento. Eu estava só naquele momento. Acendi a luz da sala e liguei o televisor. A imagem preta e branca mostrava o noticiário do Canal 12. O elegante repórter falava e explicava uma notícia. Eu me sentei na poltrona e tomei um susto ao ver a foto daquela moça do Corvette na televisão. E a voz do repórter:

“…ela foi vista aqui na cidade dentro de um carro branco, um Corvette alugado. Estava em companhia de seu cafetão. (A foto de um homem negro apareceu na tela, aquele mesmo que me chamou de frangote). Ele é chefe do Exército Simbionês de Libertação, uma organização extremista de orientação marxista em Los Angeles. Eles estão foragidos desde o ano passado. Eles são assaltantes de banco. Qualquer informação a respeito deste casal, entrar em contacto conosco”.

As fotos saíram da tela e o repórter, de terno e gravata, disse sorridente:

-Agora, nossos comerciais.

Levantei-me para desligar o televisor e abri a janela da sala. Lá fora, sob a luz da lua, avistei o Corvette branco estacionado do outro lado da via.

Alguém ligou o motor e acendeu os faróis. Não pude reconhecer seus ocupantes, pois as janelas estavam fechadas. Certamente havia um aparelho de ar condicionado lá dentro. O carro saiu lentamente até desaparecer na curva, com suas lanternas vermelhas acesas.

Fiquei lá olhando e meditando:

-Se eu contar essa estória, ninguém vai acreditar.

Taguatinga, 28 de julho de 2008