Ansiedade: doença dos tempos modernos

Estava eu, lépida e faceira, numa locadora de São Paulo, pegando um filme para um trabalho que preciso entregar. Eram 17 horas, de uma quarta-feira, e a locadora em questão, apesar de ser uma das mais famosas e freqüentadas de São Paulo, estava praticamente vazia. Peguei o meu filme e me dirigi até o balcão onde dois funcionários estavam, literalmente, fazendo nada, apenas em pé observando eu e a outra única cliente com o filho, que terminava que pegar o seu filme também. Pedi mais um filme, o funcionário olhou no computador e disse que não tinha. Resolvi pegar só aquele mesmo e, neste momento, o funcionário se transformou, como se a lua cheia tivesse acabado de invadir o dia.

 

Ele fez uma expressão assustada e pediu a minha carteirinha. Enquanto eu fazia menção de abrir a bolsa, ele se precipitou a dizer que, se eu não tivesse a carteirinha ou se estivesse difícil de pegar, poderia dar somente o número do meu CPF. Já achei estranho, pois a informação “pegue a carteira” nem bem havia chegado ao meu cérebro e ele já me dava soluções alternativas para um problema que eu nem tinha. Neste momento senti uma pequena mão na minha perna e notei o tal menino, filho da tal outra cliente, afoito ao meu lado, olhando para o caixa e quase implorando que ele pegasse os dois desenhos animados de sua mão. Disse que tinha a carteirinha, só um minuto, poxa. Ele continuava a me olhar aflito, como se houvesse uma fila de três mil pessoas atrás de mim (era só mais um menininho ansioso). Quando finalmente entreguei a carteirinha para ele, ele digitou o número na registradora, pegou o dinheiro, enfiou o filme na sacola e, como se estivesse repetindo um mantra, falou “Até amanhã, a meia noite, tenha um bom divertimento….PRRRRRRRRÓXIMO”. E, pasmem, isso tudo aconteceu em menos de 3 segundos.

 

Saí da locadora ainda meio tonta. Parecia que eu não estava entendendo nada. Somente depois de me sentar no carro, correndo, é que percebi. Eu havia entrado na ansiedade, uma ansiedade que não era minha. Meu coração estava disparado e comecei a suar de calor. Por quê? Que diabos tinha me acontecido?

 

Este fato parece, e é muito banal. Mas naquele momento me ensinou muitas coisas, principalmente como nós, que moramos numa grande cidade, estamos o tempo todo correndo, para lugar nenhum. Ora, aquele moço não estava com pressa. Ela tinha um horário fixo de trabalho e me atender ou atender dez pessoas teria o mesmo peso para ele naquele momento do meio de uma tarde de quarta-feira! Mas como deve estar acostumado a correr como um louco, com um chefe atrás dele e uma fila enorme de pessoas igualmente ansiosas, ele não sabe mais quando correr e quando não correr. Ele simplesmente adotou aquele comportamento como sendo o seu.

 

Pensei muito sobre a ansiedade depois que tive aquela conversa de mulher com o pessoal da revista UMA. Apesar de ser uma ansiosa de carteirinha, nunca tinha pensado no que é a ansiedade. A ansiedade é uma epidemia! As pessoas ficam ansiosas (contaminadas) porque outras pessoas já estão ansiosas (contaminadas). Pensei na minha família e como eu aprendi a ser ansiosa. Minha mãe é uma pessoa que, até hoje, chega com pelo menos 40 minutos de antecedência a qualquer lugar que ela vá. Tudo bem que temos que sair de casa cada vez mais cedo, numa cidade cada vez mais engarrafada, mas nem justifica se o compromisso dela fica há dez horas ou a dez minutos de casa. Acredito que parte da minha ansiedade, no fundo, venha de outras pessoas e que não tenha nada a ver comigo.

 

Ok vou me redimir. Não tem nada a ver comigo, vírgula. Afinal de contas é uma escolha que podemos fazer o tempo todo. Quando aquele homem da locadora começou a correr eu, automaticamente, comecei a correr também. Fiquei pensado, muito inconscientemente, que se eu não fizesse as coisas rápidas ele iria se zangar, ou iria me mandar embora da locadora, ou o menino ansioso que já estava praticamente me chamando de mamãe ia começar a bufar e eu, não seria aceita como uma pessoal ágil.

 

Isso, a sociedade, o nosso trabalho, o nosso chefe, a nossa mãe, todos nos cobram uma agilidade que está começando a chegar aos níveis do irracional e do impossível. É impossível pensar tão rápido (é uma questão biológica). É impossível fazer tantas coisas bem feitas ao mesmo tempo no mundo. Mesmo assim eu,(e acredito que muitos dos que estão lendo este artigo também) me cobro esta atitude e essa agilidade o tempo todo. Não marcamos mais um ou dois compromissos fora do trabalho. Marcamos quatro, cinco. Temos uma lista tão grande de tarefas e tarefas e tarefas que nos tornamos meros fazedores, apagadores de incêndios. Não temos mais tempo, não nos damos o tempo de olhar para nós mesmos, de respeitar o nosso ritmo, o nosso timming. Vivemos o tempo do outro, o tempo das indústrias e suas superproduções, e tudo isso sem envelhecer. Sendo que a única coisa que conseguiremos é envelhecer.

 

Então eu me permiti parar. Ah, que delícia. Res-pi-rar. Pensar. Ler um livro no meu ritmo e não voando porque tenho mais doze na estante esperando a sua leitura. Até os nossos livros ficam ansiosos! O pobre filho da “outra” cliente já é ansioso aos quatro anos de idade. O atendente da locadora é ansioso. Até o filme é ansioso. Está tudo fora do ritmo e a única coisa que podemos fazer para nos ajudar e ajudar aos outros é encontramos e nos mantermos no nosso tempo e nos nosso espaço. Olhar para dentro é achar o nosso ritmo. Eu estou tentando. E digo que não é fácil não se deixar contaminar por estas coisas. Mas não é impossível. Nada é impossível, não é mesmo? E por favor, não tenha pressa nessa mudança, ok? Até as mudanças precisam de respeito.