Somente quem já realizou a experiência de viver longe de seu país, sabe o que é assinar um contrato com a saudade.
Todos os dias acordar em terra estrangeira, ouvir um idioma que não é o aprendido na infância e imaginar como está a vida lá nos trópicos faz parte da
rotina de quem deixou a casa, os amigos, a família e abriu as portas das fronteiras para viver coisas novas, ampliar os horizontes, mudar a visão de tudo,
aprender e tentar uma vida diferente.
Todos arriscamos a felicidade e nem sempre ela mora ao lado. O estrangeiro tem o pé em cada canoa, sempre se equilibrando para não cair, tentando absorver
os hábitos locais e ao mesmo tempo não perder os seus, tentando parecer igual e diferente aos que caminham nas ruas. Ser estrangeiro é uma sensação única,
afirmo isso, pois já vivenciei essa experiência quando passei alguns anos na Espanha. A saudade de casa se intercalava com a alegria de descobrir algo novo,
como a quitanda na esquina, um mercado mais barato ou o curso de idiomas grátis na igrejinha.
Viver fora é voltar a ser criança, é se encantar com a novidade, é ter a curiosidade ativa e mais, aprender tudo outra vez. Além disso, é uma viagem
interna, pois descobrimos muito, sobre nós mesmos, quando somos colocados diante de situações novas, inesperadas, que provavelmente não passaríamos se não
tivéssemos arriscado, dado o passo para fora do habitual. Ouso afirmar que a coragem é o ingrediente principal a todos que embarcam nessa aventura. De todas
as formas, nunca saímos ilesos mesmo quando regressemos a casa, algo muda dentro de nós, uma sensação de inadaptação, como se não pertencêssemos mais
á aquele ambiente.
Muitas pessoas que moraram fora de seu país por um período relatam isso e passam a perceber que não pertencem a nenhum lugar. Da mesma forma, é confrontar
a própria cultura e hábitos e descobri que muitas de nossas ações são condicionadas de acordo com o local que se vive. Pude constatar isso, em minha
experiência na Espanha quando achei estranhíssimo as pessoas não comemorarem a virada do ano vestindo roupas brancas e pulando sete ondinhas.
Sentia como que a falta disso pudesse me dar azar, mas os espanhóis que escutavam sobre essa tradição achavam tudo muito excêntrico.
Coisas tão importantes para mim, mas que para eles eram banalidades e vice-versa. Tudo isso me fez acreditar nas diferenças e respeitá-las. Pude conhecer
pessoas de diferentes origens, religiões, raças e essas relações me tornaram um ser humano melhor, mais livre de conceitos e preconceitos,
mais tolerante com o mundo e comigo.
Fabiana Ganem é jornalista com especialização em Informação Internacional pela Universidade Complutense de Madrid
e participa nesse espaço trazendo noticias sobre o Brasil e assuntos de interesse aos brasileiros que vivem no Canadá. Os internautas podem participar
enviando sugestões de temas que gostariam que fossem abordados aqui no site guiabrasil.montreal@gmail.com.