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Andrea Pavlovitsch
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Andrea Pavlovitsch

Autocontrole

Vivemos a geração controle. Controle remoto, controle emocional, controle internacional, tudo parece rodar as voltas com o controle. Quem tem o controle, tem o poder. É isso mesmo, controle virou sinônimo de poder. Mas será que realmente uma coisa tem a ver com a outra?

Domínio e controle

Há séculos vemos histórias de controle e de poder. De pais controlando filhos, de patrões controlando empregados, de governos controlando as suas nações. Sempre o controle de um sobre o outro. A palavra controle é um termo francês que quer dizer “verificar, fiscalizar, dominar”. Dominar. E quem não quer ter o domínio?

Ter o domínio, ter o poder parece ser a grande pedida. Se eu tiver o poder terei tudo a meu favor. Todos os meus desejos serão realizados, da maneira que eu quiser. Parece um pensamento binário (como as fórmulas usadas no computador 0 e 1) ou melhor dizendo, bastante simplista. Em algum momento da nossa história aprendemos que quando temos o “controle” sobre tudo somos felizes. Quer dizer, deve ser isso o que quer dizer já que o único mote do ser humano é a busca do prazer, da felicidade. E quem disse isso foi o Freud, não sou eu quem está dizendo.

Controle das emoções/p>

Ok, então ter o controle sobre os outros é legal. Mas sabemos, mesmo que intuitivamente, que só teremos o controle externo quando tivermos o controle interno. Que general do exército que não tenha um controle emocional muito grande conseguiria vencer uma guerra? Que chefe de estado sem controle mental conseguiria controlar ministros, deputados e toda gama de gente interessados na mesma coisa que ele? Então, precisam ter controle para manter o poder. O ser humano é movido a emoções fortíssimas e muitas vezes destrutivas. Nós não teríamos o mecanismo do controle se ele não servisse para nada, afinal de contas é sim preciso de controle emocional, sobre aquilo que nos pega de jeito, que nos faz perder as estribeiras. E não são os acontecimentos que temos que controlar, mas sim o que faremos com aquilo. Se eu sentir raiva de alguém eu tenho que desenvolver o controle para não fazer o que o meu desejo realmente queria, que é matar a pessoa, muitas vezes literalmente. Isso porque sabemos que nossas emoções são cegas e costumam nos causar mais problemas do que soluções. Mas elas existem e precisamos lidar com elas, aprendendo a cada dia, como cada uma funciona.

Excesso de controle

Porém, em alguns casos, as coisas podem se perder. Ao invés de mantermos somente o controle das emoções que nos fazem mal, que nos dramatizam, passamos a querer controlar tudo e todos, e todas as variáveis possíveis. Autocontrole é ter o controle das emoções e não dos sentimentos e todo mundo confundi isso.

Só para constar emoção é raiva, ódio.

Sentimento é amor, paz, felicidade, inveja....

Queremos, muitas vezes, ter o poder para disfarçar o nosso medo. Queremos ter o controle para não sentir mais medo. Medo de que as coisas caminhem por um lugar que não conhecemos ou que não queremos. Medo de que as nossas necessidades não sejam atendidas, satisfeitas. Mas é impossível não sentir medo porque somos humanos. Não deixamos a vida fluir naturalmente, como se realmente fôssemos os únicos responsáveis por ela. Como se não existisse nenhuma outra força que faz com que as coisas simplesmente aconteçam.

O excesso de controle, como tudo que é demais, é que é prejudicial. Existe um limite tênue entre o controle dos nossos pensamentos obsessivos, e nossas emoções desenfreadas e o tipo de controle que nos faz achar que temos o poder absoluto sobre nós e sobre os outros.

Deixando a vida fluir

De qualquer maneira, a vida sempre ganha. Controlando ou não as coisas ninguém tem o poder de controlar todos os acontecimentos e, principalmente, os sentimentos. Muitas vezes sentimos raiva de nós por estar sentindo algo que não queríamos. Como quando nos apaixonamos por aquele cara que não nos dá a mínima, ou quando sentimos inveja daquela menina que é nossa amiga. E aí, as coisas se confundem e muito. Imagine você tentando controlar as duas coisas: a emoção da raiva e o sentimento! É para ficar maluco mesmo. A melhor coisa, nesse caso, é deixar os sentimentos fluírem como devem ser. Pode ser que ainda sintamos inveja, amor, carinho ou qualquer outra coisa por quem não merece. Mas, novamente, somos humanos e temos o direito divino de sentir as coisas, mesmo que elas não façam parte do nosso desejo de ego. O ego e a alma, aqui, se confundem demais. O sentimento é algo que vem da alma. Simplesmente sentimos. Quem tenta controlá-lo é o ego, que acha melhor assim ou assado de acordo com as suas crenças. É como um homem casado que se apaixona por outra mulher, mas “controla” os sentimentos em detrimento da moral e dos bons costumes. Acabamos por um motivo ou outro, e geralmente muito forte, justificando que não podemos sentir aquilo e, de fato, achamos que não sentimos mais.

Sentimentos recalcados

O problema é que esses sentimentos, que não nos permitimos sentir, vão para algum lugar. Eles não somem simplesmente, evaporam. Elas viram alguma coisa dentro da gente, o que chamamos de recalque. Como não podemos sentir aquilo, fazemos de conta que não existe. Um dia, esse recalque pode voltar em forma de uma doença emocional ou física ou na forma de acontecimentos que o Universo manda para nos avisar de que tem coisas guardadas, escondidas e que querem sempre voltar a tona. E como num lago profundo, quando alguém joga uma pedrinha, ele se mexe inteiro, querendo reavivar a memória. O não deixar as coisas fluírem e acontecerem também é uma maneira de tentar controlar o futuro e fazer com que tudo ande somente para onde nós queremos como se fôssemos sábios e evoluídos o suficiente para saber tudo o que nós faz bem ou mal. A vida sempre sabe mais e sempre nos manda por caminhos que ela sabe que vão fazer a gente crescer e evoluir.

É preciso confiar

Temos sim, o poder de mudar o futuro, de mudar aquilo que não está bem para a gente, mas com certeza, a vida vai saber nos mandar as situações que realmente precisamos para crescer.

Usar o controle, o autocontrole, não é ruim, desde que ele não atropele o fluxo natural da vida e não nos faça meros robôs nas mãos de um destino que pensamos controlar. Porque quanto mais achamos que controlamos tudo e tudo, mais a vida nos mostrará que ela escapa por entre os dedos, ou nos mostra uma maneira de descontrole compensatória. Assim, é preciso confiar na vida: em Deus, no Universo, nas forças, no seu subconsciente e saber que ele sempre está fazendo o melhor por nós. Entregar nas mãos do Universo é a melhor coisa quando tudo o que podemos fazer é não fazer nada.


Andrea Pavlovitsch é formada em Publicidade e Propaganda e em Psicologia.
Atua como psicóloga clínica e escritora e contribui no GuiaBrasil.ca,
escrevendo sobre temas variados da sua area de trabalho.
 

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